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Artigo

Sustentabilidade na construção de alto padrão

Além do discurso, uma questão de gestão.

A palavra sustentabilidade carrega mais ruído do que deveria. No universo da construção civil de alto pa-drão, ela se traduz em algo muito mais preciso: decisões de projeto que protegem o patrimônio, reduzem custos e antecipam o futuro. Sustentabilidade aplicada à construção civil não é, em essência, uma pauta apenas ambiental; é uma metodologia de projeto que reduz desperdícios, antecipa riscos e preserva o valor do patrimônio ao longo do tempo. O que se chama de "construção verde" é, na prática, construção bem gerenciada.

A eficiência começa antes do início da obra. Decisões tomadas ainda na fase de projeto, considerando as condicionantes ambientais do terreno, a especificação de sistemas de infraestrutura (elétrica, hidráulica e climatização) e a escolha de materiais com menor necessidade de manutenção, têm impacto direto e mensurável no custo operacional do imóvel por toda a sua vida útil. Vale lembrar que o custo de constru-ção representa apenas uma fração do custo total do ciclo de vida de uma edificação: estudos do setor estimam que entre 70% e 80% dos gastos ao longo da vida de um imóvel estão concentrados na operação e manutenção.

Segundo levantamento compilado pelo Green Building Council Brasil, edificações que seguiram critérios técnicos rigorosos desde a concepção de projeto registram reduções médias de 25% no consumo de energia e quedas entre 40% e 60% no uso de água. Para um imóvel de alto padrão, onde o custo do con-domínio e a qualidade dos sistemas são critérios de escolha, esses números não são abstratos. São diferenciais que o morador sente no bolso e percebe no dia a dia.

Há ainda uma dimensão que o mercado começa a precificar de forma mais explícita: o risco regulatório. Em março de 2026, a Caixa Econômica Federal retomou o financiamento de imóveis de alto padrão com uma exigência adicional: os projetos precisam obter o Selo Casa Azul, certificação de sustentabilidade avaliada pelo banco com base em critérios ambientais e de eficiência construtiva. No mesmo período, as Resoluções CVM 217, 218 e 219 passaram a exigir que companhias abertas divulguem informações fi-nanceiras relacionadas à sustentabilidade com o mesmo rigor das demonstrações contábeis. Institucio-nalmente, o que antes era recomendação torna-se obrigação.

A tendência, segundo especialistas do setor, é que em médio prazo os critérios ambientais deixem de ser diferenciais e passem a ser requisito básico para competir no mercado imobiliário. Empreendimentos concebidos hoje sem considerar esse horizonte regulatório correm o risco de se tornarem ativos obsole-tos antes mesmo de completarem sua primeira década de operação.

É nesse contexto que as certificações internacionais, como o LEED, gerenciado globalmente pelo Green Building Council, ganham relevância técnica e econômica. Longe de serem apenas selos, essas certifica-ções impõem um processo de rastreabilidade de decisões, auditoria de desempenho e verificação inde-pendente de resultados. Segundo a pesquisa "Green label signals in an emerging real estate market", de Odilon Costa e Wesley Mendes da Silva, publicada com dados citados pelo Green Building Council Brasil, empreendimentos reconhecidos como sustentáveis em São Paulo registram valorização de 4% a 8% por metro quadrado na comercialização do aluguel. De acordo com dados do Green Building Council Brasil, empreendimentos certificados chegam a ser negociados por valores até 25% superiores à média do mer-cado. A certificação, portanto, não apenas garante qualidade. Ela a torna verificável e mensurável.

O setor imobiliário de alto padrão tem como premissa entregar o que há de melhor em cada detalhe, dos acabamentos ao conforto acústico, da curadoria de fornecedores à gestão de obras. Incorporar a lógica sustentável a esse processo não é mudar de direção: é ser coerente com a própria promessa de excelên-cia. A pergunta relevante não é mais se sustentabilidade vale o investimento, mas sim quantos empreen-dimentos ainda serão entregues sem ela antes que o mercado torne essa escolha inevitável.

Sobre a autora

Juliana Hilkner Guartieri de Oliveira
Coordenadora de Projetos na Fort Real Estate Management

_Arquiteta e Urbanista formada pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas, com pós-graduação em Design de Interiores e certificação como BIM Manager pelo Zigurat Global Institute of Technology, com dupla titulação pela Universitat de Barcelona. É credenciada LEED® Green Associate™ pelo U.S. Green Building Council, certificação que atesta domínio sobre as práticas e metodologias de construção susten-tável reconhecidas internacionalmente.

Na Fort Real Estate Management, atua como coordenadora no departamento de projetos, com papel cen-tral na gestão e articulação de mais de 20 stakeholders por empreendimento, garantindo alinhamento técnico e estratégico ao longo de todas as etapas do projeto, com foco na qualidade técnica e no refinamento estético._

  1. Estudos do setor estimam que entre 70% e 80% dos gastos ao longo da vida de um imóvel estão concentrados na operação e manutenção. Ver: WHOLE BUILDING DESIGN GUIDE. Operations and Maintenance. National Institute of Building Sciences, 2021.
  2. GREEN BUILDING COUNCIL BRASIL. Edifícios verdes entram no foco dos investidores. Valor Econômico via GBC Brasil, 2022. Disponível em: https://www.gbcbrasil.org.br/midia/edificios-verdes-entram-no-foco-dos-investidores. Acesso em: mar. 2026.
  3. AGÊNCIA BRASIL. Caixa retoma financiamento para imóveis acima de R$ 2,25 milhões. Agência Brasil, mar. 2026. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-03/caixa-retoma-financiamento-para-imoveis-acima-de-r-225-milhoes. Acesso em: mar. 2026.
  4. SMARTBRAIN. ESG no mercado de investimentos: o que esperar em 2026. Smartbrain, mar. 2026. Disponível em: https://smartbrain.com.br/esg-no-mercado-de-investimentos. Acesso em: mar. 2026.
  5. GREEN BUILDING COUNCIL BRASIL. Brasil ocupa o 4º lugar no ranking mundial de construções sustentáveis certificadas pelo LEED. GBC Brasil, 2019. Disponível em: https://www.gbcbrasil.org.br/brasil-ocupa-o-4o-lugar-no-ranking-mundial-de-construcoes-sustentaveis-certificadas-pela-ferramenta-internacional-leed. Acesso em: mar. 2026.
  6. COSTA, Odilon; MENDES DA SILVA, Wesley. Green label signals in an emerging real estate market. Dados citados pelo Green Building Council Brasil. Disponível em: https://www.gbcbrasil.org.br/midia/edificios-verdes-entram-no-foco-dos-investidores. Acesso em: mar. 2026.
  7. GREEN BUILDING COUNCIL BRASIL. Edifícios verdes entram no foco dos investidores. Valor Econômico via GBC Brasil, 2022. Disponível em: https://www.gbcbrasil.org.br/midia/edificios-verdes-entram-no-foco-dos-investidores. Acesso em: mar. 2026.

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